Após entrevista ao vivo, jornalista descobre câncer no primeiro exame de mamografia
A jornalista Suélen Giron, de 43 anos, descobriu que estava com câncer de mama em estágio inicial em março deste ano. Nos últimos meses, ela passou por tratamento no Hospital de Amor de Barretos (SP) e já está em remissão da doença, mas conta que, desde então, mudou definitivamente a forma como encara a vida -- especialmente, a profissional.
Até 2025, Suélen conta que nunca tinha feito mamografia, estava com os exames de rotina atrasados há pelo menos três anos, mas confessa que sempre orientava as ouvintes da rádio onde trabalha, na região Araçatuba (SP), sobre a necessidade da prevenção.
Ela afirma que não vinha fazendo acompanhamento médico por acreditar que, de fato, não tinha nenhum problema de saúde.
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Só que uma entrevista ao vivo com uma médica para falar sobre o Outubro Rosa no ano passado, fez com que Suélen começasse a se cobrar para ser mais coerente com as mensagens que passava ao público.
"Minha consciência começou a pesar, porque eu falei 'nossa, estou falando para as minhas ouvintes, para se cuidarem, fazerem exame, mas eu mesma não estou fazendo. Estou falando isso porque, além de jornalista, sou professora de oratória e a coerência, pra mim, é muito importante. E a minha consciência ficou pesada. Não porque eu achei que tivesse alguma coisa, mas por não ter feito o exame".
A jornalista Suélen Giron, de 43 anos, descobriu um câncer de mama no primeiro exame de mamografia
Arquivo pessoal
Ao g1, Suélen contou que, antes mesmo de a entrevista com a profissional terminar, já tinha decidido procurar a própria ginecologista para atualizar os exames, mas adiou a consulta por mais alguns meses.
"Falei 'quer saber? Pro ano que vem [2026], eu vou fazer, o fim do ano já foi muito corrido e tal'. Virou o ano, falei 'vai chegar março, mês das mulheres, março lilás, já faz uns três anos que eu não faço os exames que a gente tem que fazer anualmente, então vou fazer pra estar com a consciência tranquila de que eu estou falando algo que eu faço'. Era essa a minha intenção".
Em janeiro deste ano, Suélen passou por consulta. Em março, agendou todos os exames de imagem de uma vez: mamografia, ultrassom da mama e até tireoide. O diagnóstico veio duas semanas depois: carcinoma mamário invasivo. A partir daí, a jornalista começou a busca por tratamento e chegou até o Hospital de Amor de Barretos.
Ela conta que revelou a doença a poucas pessoas do contato e se surpreendeu em saber a quantidade de mulheres que também estavam com exames atrasados.
"Contei 11 mulheres que admitiram pra mim, mulheres próximas, que admitiram que elas também não estavam com os exames delas em dia. Irmã de médico, esposa de médico, secretária de médico, gente que tem acesso à saúde, que tem acesso a exames, que tem plano de saúde, que tem acesso à informação. Então, me surpreendeu. Pensavam como eu 'ah, não dá nada', 'ah, não tenho tempo pra isso', 'outro dia eu faço', 'não tenho histórico na minha família'. Eu também não tinha".
Suélen Giron, durante tratamento contra um câncer de mama no Hospital de Amor de Barretos, SP
Leandro Joaquim Mariano
'Parecia que o chão estava desabando'
A biópsia apontou um nódulo de sete milímetros, praticamente impalpável, no colo do peito (na região do decote). Suélen recebeu o diagnóstico da doença sozinha, dentro do carro, depois de abrir o exame que tinha acabado de pegar no laboratório de patologia.
"Parecia que o chão estava desabando na minha frente. Eu já estava especialista em câncer de mama. Antes de saber, já tinha lido tudo que eu podia a respeito. A hora que eu abri, eu já sabia. Mesmo assim, tirei uma foto pelo ChatGPT para confirmar se era ou não era o que eu estava achando que era mesmo. E era. Aí eu comecei a chorar. Liguei pra minha psicóloga, pro meu pai, chorei a tarde inteira. Foi no dia 12 de março. Ou seja, no mês da mulher, que eu queria chegar tranquila de que estava com os exames em dia, eu estava recebendo o diagnóstico".
Depois da biópsia, Suélen fez o exame de imuno-histoquímico, que apontou que o tipo de câncer dela era hormonal.
Como a jornalista tinha um nódulo bem pequeno e o tumor não era agressivo, foi direto para a cirurgia. Ela não precisou passar por quimioterapia, mas fez sessões de radioterapia por três semanas, em Barretos.
"Foi o pior momento do meu tratamento. Por estar longe da família, por estar longe do meu filho (...). Todo mundo fala muito da quimio, porque a quimio debilita absurdamente. Mas a radioterapia dá um cansaço que eu nunca senti na vida e olha que eu sou mãe solo, jornalista, sei como é trabalhar muito, como é cansativo, como é estressante. Mas o cansaço da radioterapia, eu nunca tinha sentido".
Suélen Giron passou ser sessões de radioterapia no Hospital de Amor de Barretos, SP
Arquivo Pessoal
Falar do assunto ajudou no tratamento
Longe de casa para o tratamento em Barretos, Suélen passou a usar as redes sociais para falar do assunto, como forma de incentivar os seguidores sobre a importância de exames de prevenção.
"Até então, eu quase não falava, porque queria saber primeiro qual seria o tratamento e como ficaria meu emocional. Quando eu vi que meu emocional estava bom, eu comecei a falar. Só que aí eu fiquei muito vulnerável por causa do meu filho, mas comecei a expor um pouco dessa vulnerabilidade, que é força também. Ninguém vai achar que é um processo fácil de se passar, porque não é. Falavam muito 'ai, você é muito forte'. De fato, eu sou muito forte. Você tem que ser. Porque tem horas..."
Mesmo distante, a família sempre esteve ao lado da jornalista e ela revela que esta rede de apoio fez a diferença durante as três semanas de radioterapia em Barretos.
"Graças a Deus, meu pai, minha mãe, meus tios estiveram do meu lado. Mesmo o meu ex, os pais dele, a avó do meu filho, todo mundo ajudando muito. Então, eu tive família. Mas tem coisas que é você por você mesma, não tem jeito".
Suélen, que segurou as lágrimas por muitas vezes desde o diagnóstico, se permitiu chorar quando terminou o tratamento.
"O dia que eu toquei o sino, eu chorei. Chorei porque eu falava 'não acredito'. Eu até gravei um story no dia, falei 'todo choro que eu não chorei durante o tratamento, porque eu não chorava durante o tratamento, às vezes eu chorava de emoção, se alguém me falava uma coisa bonita, chorei de saudade do meu filho, mas eu não chorava de ficar 'ai, estou aqui hoje pensando na pós-cirurgia', alguma coisa assim. Vou chorar? Não, não chorava".
Hoje, Suélen faz tratamento de hormonioterapia, que deve durar cinco anos. Como o câncer dela foi hormonal, o medicamento tem como função bloquear o estrogênio e a progesterona na mama.
"A minha cirurgia foi conservadora, tirou só o nódulo. E a minha mama está bonita, a cicatriz é muito discreta, perto da aréola, igual cirurgia de silicone, só que menor, porque não pega o peito todo. Então, é uma cicatriz bem pequena. Eles fizeram um trabalho de oncoplastia muito bonito".
A jornalista Suélen Giron no dia em que tocou o sino, após a remissão do câncer que tratava no Hospital de Barretos, SP
Arquivo Pessoal
Confiar e não se culpar
Nos últimos meses, Suélen Giron tem usado a própria história para incentivar as pessoas a se cuidarem mais. Não só como jornalista, mas agora também como palestrante, ela faz questão de falar do assunto e da importância do diagnóstico precoce.
"Ele salva vidas e salvou a minha vida. Se tiver uma mulher que foi fazer exame, vai ter valido a pena. Eu tenho recebido muita mensagem de mulheres que estão nesse processo de investigação e elas falam 'eu te acompanho e saber da sua história, saber que deu certo, me dá uma certa tranquilidade de que a minha vai dar também'".
Entre as lições que aprendeu nos últimos meses, a jornalista destaca duas delas: é preciso confiar nos médicos e o mais importante: não se sentir culpada.
"Eu pensava 'o que eu fiz pra desenvolver isso? O que eu fiz? O que eu fiz de errado? Eu engordei? Eu não comi direito, eu comi coisa que não podia? Porque eu não fumo, nunca fumei, nunca fui de beber muito' (...) 'Será que eu comi muito salame? Será que eu engordei? Será que...' A gente fica procurando resposta. E aí eu falei 'quer saber? Não adianta me culpar'. O negócio aconteceu, tinha que ser e eu tenho que aceitar e acreditar e tratar".
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