Notícia

Morre o comentarista esportivo Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha

28/10/2026

Morre o comentarista esportivo Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha

O jornalismo esportivo gaúcho perdeu um grande personagem. Adroaldo Guerra Filho morreu nesta quarta-feira, aos 70 anos, em Porto Alegre, vítima de infecção pulmonar que evoluiu para um quadro generalizado. Comentarista da Rádio Gaúcha, Guerrinha ficou marcado pela versatilidade, carisma e frases de efeito tão engraçadas quanto sarcásticas.

Suas tiradas preencheram as ondas do rádio nos últimos 26 anos (estreou em 1999) e as redações por quase cinco décadas. As sentenças certeiras saiam com tamanha facilidade que fazia parecer que era um homem de rádio. Embora sua ligação com o veículo remeta à sua infância devido ao trabalho do pai, foi juntando as pretinhas, como carinhosamente chamava as letras impressas nos jornais, que teve contato do primeiro ao último dia da carreira.

Guerrinha, como era chamado pelos colegas de maior tempo de convivência, era filho da funcionária pública Ieda e do rádio-ator e comunicador da Rádio Gaúcha Adroaldo Guerra, popularmente conhecido como Vovô Guerra por apresentar um programa infantil.

Do pai herdou, sobretudo, o gosto pelo turfe. O jornalismo veio de charrete com a atração pelo mundo das corridas de cavalo, pois, apesar de admirar a carreira artística do pai, não imaginava que viria a ter sucesso no rádio.

Turfe marca início da carreira

A longa vivência no hipódromo e o carisma o tornaram um contador de histórias inusitadas, sempre acompanhadas da inconfundível risada, fosse no ar ou nos corredores. Não era raro vê-lo com uma plateia atenta ouvindo os seus causos. Rendeu também o primeiro emprego.

"Não se pode ir pra guerra com um secador de cabelo".

Estudante de Jornalismo na PUCRS, Guerrinha publicou suas primeiras palavras no Jornal Hoje, criado pela RBS nos anos 1970 e que teve vida curta. Logo em seguida, passou a acompanhar o cotidiano do Jockey Club para a Folha da Manhã e, depois, para o Correio do Povo, ambas publicações da extinta Caldas Júnior.

À época, as provas mereciam destaque de uma página diária, visto que os cavalinhos, como ele gostava de se referir aos animais, também eram uma das paixões de Breno Caldas, dono da empresa.

Na RBS desde 1983

O retorno ao Grupo RBS ocorreu em 1983, quando, a convite de Emmanuel Mattos, passou a escrever sobre assuntos hípicos em Zero Hora. Embora assumisse o conhecimento sobre o prado, afirmava que ganhou espaço porque ninguém queria tratar do tema.

O espaço dedicado ao turfe foi minguando até que, em 1993, a cobertura foi abandonada devido ao público diminuto. A partir dali, passou a trabalhar com algo que muitos queriam tratar. Guerrinha passou a fazer a cobertura do Inter em Zero Hora.

"Não dá pra servir farofa em restaurante com ventilador de teto".

A transição foi um "parto sem dor", afinal o futebol também fazia parte do cotidiano do jornalista. Foram anos percorrendo os corredores do Beira-Rio atrás de informações.

Do jornal para o rádio

Apostador contumaz, ele sentenciava que só ganha na loteria quem compra o bilhete, então é preciso arriscar. No final daquele século, começou a se aventurar fora das páginas do jornal, às vezes com a necessidade de receber um empurrãozinho.

A transformação em um homem de rádio iniciou-se em 1999, quando a Gaúcha lançou, sob a grife de Paulo Roberto Falcão, o programa de entrevistas "Falcão na Gaúcha", coapresentado por ele. Em 2014, três anos após a saída do ex-jogador da emissora, foi criado o "Paredão do Guerrinha", atração com a mesma ideia e tendo Guerrinha como apresentador.

"Dormindo no gelo e acordando suado"

Bem antes, na virada do milênio, a atuação profissional no meio impresso tinha ganhado um capítulo importante. Em 17 de abril de 2000, quando o Diário Gaúcho começou a circular, ele estreou a coluna "Guerra Total". A principal marca de seu espaço era a perguntinha, questionamento instigante e irreverente que fazia o leitor refletir sobre o tema do momento.

A estreia na TV

A entrada na TV foi tão inusitada quanto suas frases. No começo dos anos 2000, a RBS TV transmitia o "Lance Final" nas noites de domingo. Apresentado por Pedro Ernesto Denardin, a bancada contava com Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, como representante gremista, e Ibsen Pinheiro, como representante colorado. Ibsen deixou o programa para se dedicar à vida política. Guerrinha foi o escolhido para substituí-lo.

"Se beleza fosse crime, eu seria inocente"

Duas questões se impunham naquele momento. Um era que ele não se via como alguém que trabalharia na televisão. Além de não ter intimidade com a câmera, gostava de brincar que se beleza fosse crime, ele era inocente. Convocado para fazer um teste, utilizou todas as artimanhas possíveis para não ser aprovado. Sua intenção não funcionou. Foi chamado para conversar com Nelson Sirotsky, então presidente da RBS.

Ter de se identificar como colorado era visto como encrenca, afinal, restaurante que serve farofa não tem ventilador de teto. A pergunta feita a ele era simples e tinha duas opções.

– O Nelson me perguntou assim: "Tu preferes ser identificado com a torcida colorada na RBS ou isento em outro lugar?". Minha resposta foi rápida: "A que horas tenho que estar lá?" – costumava contar quando questionado sobre o assunto.

Chegada ao Sala de Redação

A estreia no "Sala de Redação" não tardou. Em 2004, foi convocado para cobrir as férias de Kenny Braga. Guerrinha sentou na bancada do mais tradicional programa de debates esportivos do RS para não sair mais.

Como ele dizia, não se vai para guerra com uma escova de dentes. Ele foi para a bancada munido com um arsenal de frases para participar da acalorada troca de ideias no horário do almoço.

Uma das tiradas mais famosas foi apelidada por Pedro Ernesto como "Lei Guerrinha". Ela tenta explicar aquelas mudanças inexplicáveis feitas por treinadores de futebol que fazem trocar quando tudo parece correr bem. "Se algo deu certo, então tem que mudar", diz o artigo único da Lei.

As sacadas oportunas e as opiniões ferinas casaram com o perfil do programa e o transformaram em um dos participantes mais queridos pelo público. O receio de sofrer retaliações por se identificar como colorado se esfarelou. A acidez nos comentários para os dois lados fez com que ganhasse admiradores entre vermelhos e azuis.

Guerra deixa a esposa Kátia, as filhas Michele e Karine, e três netos.

Compartilhe
Rádio Pura Energia
No ar
Rádio Pura EnergiaEnergia que Contagia